Let’s Talk About [Movies] – Especial Alfred Hitchcock 04 – Os Pássaros (The Birds, 1963)

Minha breve opinião sobre o filme:

Retomo com “Os Pássaros” o Especial Alfred Hitchcock, série de críticas dos mais importantes filmes do mestre do suspense. “Os Pássaros” não entra na minha lista de filmes preferidos de Hitchcock (lista esta integrada por “Um Corpo Que Cai”, “Janela Indiscreta”, “Intriga Internacional”, “Psicose”, “Interlúdio” , “O Festim Diabólico”, “Disque M Para Matar” e “Rebecca- A Mulher Inesquecível”), pois acho que os efeitos especiais do filme ficaram visualmente muito datados com o tempo (apesar de todo o esforço e do grande trabalho da produção do filme com os efeitos especiais, que eram bastante limitados na época), no entanto, é louvável o fato de que Hitchcock consegue criar, ao longo do filme, um clima angustiante, de paranóia e terror em torno de algo aparentemente sobrenatural: pássaros começam a atacar a população da cidade americana de Bodega Bay sem nenhuma explicação plausível. O que poderia ter acarretado isso? O grande mérito do filme é não responder a essa pergunta, deixando o espectador ainda mais curioso e tão angustiado quanto os personagens do filme.   

Fiquem abaixo com a crítica do filme.

Os Pássaros (The Birds, 1963)

Por Guilherme Vasconcelos

Hitchcock sempre foi mais um cineasta dos climas angustiantes, das atmosferas perturbadoras do que do medo propriamente dito. Seu foco era trabalhar os dilemas existenciais dos personagens, suas aflições psicológicas e de que maneira o homem comum, habituado com a mediocridade e estabilidade do cotidiano, reage diante de circunstâncias improváveis e extraordinárias provocadas pelo acaso ou, como em Os Pássaros, pelo sobrenatural.

Hitchcock fazia seus personagens sofrerem, fazia-os pagar por erros ou crimes que não cometeram para levar a cabo estudos sobre o comportamento humano em situações-limite. Como encaramos o imponderável? A quem ou ao que recorremos para nos livrar de uma circunstância sobre a qual não temos poder? Como nos comportamos diante dos obstáculos impostos pelo acaso? Recuamos diante deles ou partimos para o embate?

Essas eram, em geral, as perguntas que o cinema do mestre responde ou para as quais apenas aponta sugestões, possibilidades, caminhos. Os Pássaros é um filme de natureza psicológica, com um tom sobrenatural, enigmático. Não há um assassino, um vilão. O castigo para os homens é inumerável e vem do céu: pássaros, animais aparentemente inofensivos, começam a atacar humanos de maneira descontrolada na paradisíaca cidade litorânea de Bodega Bay. O paraíso, o lugar perfeito para se passar um fim de semana tranqüilo, aos poucos, transforma-se, sem qualquer explicação e sem poupar ninguém, em uma verdadeira carnificina.

A metamorfose de Bodega Gay tem início na famosa seqüência do bote, em que a personagem Melaine Daniels (interpretada por Tippi Hendren) atravessa a baía para entregar um presente – um casal de periquitos – a Mitch Brenner (Rod Taylor), homem solteiro por quem se apaixona logo após conhecê-lo em uma loja de pássaros. Na seqüência em questão, uma espécie de homenagem ao cinema mudo, Hitchcock, como lhe é peculiar, exibe um domínio completo das técnicas da arte de filmar. Praticamente sem o auxílio de sons, o diretor constrói significados e sensações “apenas” com imagens.

Nos três primeiros frames, o mestre, a partir de planos gerais, preocupa-se em mostrar a paisagem, em ambientar o espectador naquele lugar sossegado e inspirador. Depois, em um plano médio, a câmera se aproxima da personagem, mostra o que ela observa para, em seguida, concentrar-se na sua reação àquilo que vê. Hitchcock, então, fecha o enquadramento e passa a acompanhar a entrada de Daniels na casa de Mitch. Como se estivesse sugerindo que há alguém por perto, a câmera nos mostra, em uma rápida tomada, a casa de frente. Daniels sai apressadamente e Hitchcock se detém em suas costas: alguém a observa sem que ela saiba.

Ela retorna para o bote e a câmera fecha em seu rosto. A alternância de planos subjetivos e objetivos continua e a expectativa é acentuada. O espectador sabe que algo vai quebrar a normalidade da situação. Mitch surge e tem início uma troca de olhares à distância. Novamente, vemos o que cada um vê e depois somos convidados a interpretar suas expressões faciais. Ele se mostra surpreso e contente e ela parece deslumbrada. Pronto: parece que tudo se encaminha para um feliz encontro amoroso. Hitchcock, entretanto, prepara uma surpresa: um pássaro aparece de repente e ataca Daniels. A seqüência termina com um close na mão ensangüentada da personagem. A expectativa não foi em vão. Hitchcock nos diz que, apesar do cenário idílico, não estamos a ver um filme romântico. O presságio anuncia: a transformação de Bodega Bay já começou.

Os ataques se sucedem. Os questionamentos crescem. O pânico se espalha. Até as crianças são alvo de uma raiva inexplicável. O ódio é direcionado aos seres humanos. Somos nós os inimigos. O que fizemos? Hitchcock não responde. Ao contrário, faz questão de suscitar dúvidas – a seqüência do posto de gasolina, em que o diretor constrói um microcosmo de tipos humanos variados, é exemplar nesse sentido. Nada se resolve, nada é elucidado.

Os Pássaros não termina: o horror psicológico e a atmosfera atordoante – reforçados pelos efeitos sonoros assustadores que se confundem com o grasnar das aves – causados pela ferocidade de animais dos quais os seres humanos nunca esperaria agressividade continua a inquietar o espectador mesmo após o fim apocalíptico. O que tudo isso significa? Pouco importa. O foco de Hitchcock está em causar perturbação em quem vê, em mostrar ao homem, do alto de sua segurança e racional superioridade, seu papel e sua posição de fragilidade diante da imensidão e das incertezas do universo. A causa do medo não interessa: Hitchcock quer retirar o espectador da zona de conforto para fazer nascer nele uma inquietação ontológica.

Mario Stars:  (5/5)

Eduardo Vasconcelos

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